Arquivo para outubro \18\UTC 2010

Encarar a realidade

Não há como fugir, se esconder, pular, trocar, parar, ou sei lá mais o quê, fases são incontroláveis, simplesmente acontecem, são conseqüência de atos, de decisões, da vida. Às vezes pode até estar em nossas mãos o controle sobre o que fazer em cada fase, podemos decidir como agir em dada situação, mas nunca mudar sua sequência.

Por exemplo, alguém que deixa um emprego sem outro em vista, as fases podem ser: ficar desempregado > procurar um novo emprego > não encontrar um novo emprego > ver as pessoas do seu antigo emprego ganhando mais > esperar respostas de um novo emprego – nesse estágio é que as coisas podem se divergir e aí, então, existem duas fases possíveis: conseguir um novo emprego ou permanecer sem respostas. Aqui, nessa parte do exemplo, é que a pessoa passa a ter “poder” sobre a fase, repito, não para mudá-la, mas para decidir o quê e como agir diante dela.

Se a questão é “conseguir um novo emprego”, tranqüilo, basta abraçar com todas as forças e se dedicar ao máximo para mantê-lo, e essa é mais uma fase que precisa ser passada. Agora, se a questão é “permanecer sem respostas”, aí sim a decisão sobre o que fazer passa a ser mais delicada.

O indivíduo pode agir com maturidade, encarando a situação e criando outros meios de seguir sem cair na falência, ou ainda buscar outros trabalhos, mesmo que fora de sua área de atuação, até encontrar o que lhe agrada; ou pode agir com infantilidade, recusando oportunidades só porque não era o que ele estava procurando, não aceitar a realidade e ficar chorando porque a vida não dá oportunidade, ou até se envolver com coisas ilícitas, pelo simples fato de achar que honestamente não conseguirá nada.

São visões distintas que as pessoas têm dos acontecimentos, nem todas são capazes de suportar o fardo, às vezes pesado, de ter que aceitar que a realidade nem sempre é como elas gostariam que fosse, e que, a todo momento, será preciso se adaptar às fases que são inevitáveis.

Usei o lado profissional apenas para ilustrar um exemplo das inúmeras fases nas quais estamos sujeitos a passar, e que nos obrigam a escolher a melhor forma de agir. No entanto, ao longo da vida, passamos por diversos acontecimentos, que nos deixam sem caminhos, sem meios de contornar ou fugir. Seja o exemplo citado, seja o início de um relacionamento, ou um relacionamento acabado; seja alguém que nos magoou, ou alguém que, sem querer, tenhamos magoado. Diante de todas as situações temos que adotar uma postura e encarar o fato de alguma forma.

É preciso aceitar que não temos força ou poder suficiente para mudar as fases que cada situação nos coloca, elas acontecem pra todos, pro mundo inteiro, não importa se aqui, nos Estados Unidos, na China, Japão; pra crianças, jovens, velhos, todos, definitivamente, são obrigados a passar por fases que só a vida tem a autoridade de escolher.

Agir com maturidade, aceitando a realidade que não podemos mudar e buscando meios pra conviver com ela, é a maneira mais coerente e menos dolorosa que temos de passar pelas inevitáveis fases da vida.

Microconto II

Um dia a pequena grande menina olhou pela janela, descobriu a numerosidade de folhas que haviam caído enquanto em seu quarto ela esperava para crescer. Não tinha a quem culpar, pois durante todo esse tempo as chaves permaneceram em suas mãos. Pobre menina, aquele foi mais um outono em que não havia ninguém por perto.

Olhar através de um olhar inocente

Dia das Crianças e não se fala em outra coisa (mas vale lembrar que é também – e mais importante data – Dia de Nossa Senhora, para os católicos). Então, como não lembrar desses pequeninos seres? Não dá pra deixar passar batido. Por isso, aproveito para ressaltar algumas características das crianças que deixa qualquer adulto no chinelo, por não ter a mesma capacidade.

Talvez por inocência, o que já não temos mais, ou ainda por próprio caráter, crianças são sinceras ao extremo. Às vezes, até sinceras de mais, como não se pode ser – como diz o ilustre Humberto Gessinger. Mas isso é uma das coisas mais belas nas crianças, algo invejável num mundo onde quase tudo gira em torno da falsidade, onde as pessoas mentem descaradamente, abusam da confiança de outras pessoas e acabam, ao final, causando dor, sofrimento, discórdia e tantos outros males que, talvez, se houvesse mais sinceridade não existiriam.

Você já deve ter ouvido falar isso por aí, mas acho que vale repetir, devíamos aprender com as crianças. Difícil, né? Como aprender com seres tão inexperientes, que nada sabem da vida? Aí está mais uma coisa que crianças podem nos ensinar mais que qualquer um nesse mundo: a aprender.

Crianças estão sempre abertas a aprenderem, sabem aprender apenas observando, e não querem saber se é certo ou não, apenas aprendem. O que às vezes é uma pena, porque acabam aprendendo com a gente, que não nos importamos em aprender com elas, aí acabam se tornando pessoas como nós, e perdendo muito do que há de melhor num ser humano.

Como se não bastasse essas duas características fantásticas dos pequenos, há outra que é incomparável: a capacidade que as crianças têm de perdoar.

Se as pessoas não aprendessem nada além do perdão com as crianças, o mundo já seria uns 90% melhor. É incrível como os pequenos têm a imensa capacidade de não guardar rancor uns dos outros. Lembro de mim, e vejo hoje como são. A tecnologia evoluiu, as brincadeiras mudaram, as crianças estão cada vez mais espertas, mas a capacidade de perdoar é uma coisa que não muda. Em uma hora estão brincando, de repente já estão brigando, daí uma vem com os dedos entrelaçados estendendo as palmas das mãos para frente, e diz: “tô de mal de você”.

O engraçado é que elas, diferentes de muitos adultos que, quando não tentam prejudicar o outro que ficou “de mal”, dificilmente irá fazer as pazes novamente, as crianças, no dia seguinte, estão se convidando para brincar, e aquela que tomou a iniciativa no dia anterior de dizer que estava “de mal”, aceita, como se nada tivesse acontecido, e realmente esquece o episódio, não fica trazendo aquele passado para outras discussões, como nós sempre fazemos.

Fica uma dica, nesse Dia das Crianças, um dos melhores presentes que podemos dar aos pequeninos talvez seja a oportunidade de aprenderem coisas melhores do que aquilo que nós e o mundo temos para ensinar. E como? Aprendendo com eles primeiro.

Tempos que não voltam

Saudade dá mesmo daquelas coisas que mexem com a vida da gente. Até sentimos saudades de bons momentos, mas eterno é aquilo que nos transforma de alguma maneira. Que deixa em nós marcas tão profundas que nem o tempo, nem o melhor dos momentos consegue substituir ou fazer esquecer.

Saudade dá dos caminhos que acabamos deixando para trás em favor de uma nova jornada. Saudade dá de amigos, que mesmo quando descobrimos que nem são tão amigos assim, ainda faz falta, porque naquele momento foram amigos de verdade. Saudade dá de compromissos, conosco e com o próximo, até daqueles que sufocavam às vezes, mas no fundo, tinham só o intuito de preencher os vazios, que estando longe deles acabamos por perceber.

Saudade dá, às vezes passa, mas vira e mexe retorna. E por essa saudade, a saudade eternizada por momentos assim, é que eu reservo esse espaço para falar através das palavras de um texto bíblico, o que realmente é saudade pra mim, e o que me deixou muitas marcas, boas, é claro.

Jó 29, 2 – 18

“Quem me tornará tal como antes, nos dias em que Deus me protegia quando sua lâmpada luzia sobre a minha cabeça, e a sua luz me guiava nas trevas?

Tal como eu era nos dias de meu outono, quando Deus velava como um amigo sobre minha tenda, quando o Todo-poderoso estava ainda comigo, e meus filhos em volta de mim; quando os meus pés se banhavam no creme, e o rochedo em mim derramava ondas de óleo; quando eu saía para ir à porta da cidade, e me assentava na praça pública?

Viam-me os jovens e se escondiam, os velhos levantavam-se e ficavam de pé; os chefes interrompiam suas conversas, e punham a mão sobre a boca; calava-se a voz dos príncipes, e a língua colava-se-lhes no céu da boca.

Quem me ouvia felicitava-me, quem me via dava testemunho de mim.

Livrava o pobre que pedia socorro, e o órfão que não tinha apoio.

A benção do que estava a perecer vinha sobre mim, e eu dava alegria ao coração da viúva.

Revestia-me de justiça, e a equidade era para mim como uma roupa e um turbante.

Era os olhos do cego e os pés daquele que manca; era um pai para os pobres, examinava a fundo a causa dos desconhecidos.

Quebrava o queixo do perverso, e arrancava-lhe a presa de entre os dentes.

Eu dizia: ‘Morrerei em meu ninho, meus dias serão tão numerosos quanto os da fênix.’”

Esse texto, mais que um mero aglomerado de palavras que muita gente pode achar besteira, é para mim como um poema, que expressa e traduz muito do que já vivi, embora não com tanta intensidade, nem à risca, mas que foram alguns dos melhores momentos da minha vida, e hoje, tomei a liberdade de compartilhá-los com vocês.

Construa seus dias

Em nossa vida sempre haverá dias cinzentos, dias escuros e dias em branco.

Os cinzentos são apenas para avisar que o rumo pode ser mudado, que ainda temos a chance de não deixá-lo se apagar, que basta mirar o sol, deixar a brisa bater para que tudo se clareie.

Já os dias escuros indicam que nos prendemos aos cinzentos e esses se acumularam, e acabaram encobrindo o sol e impedindo a brisa de se achegar. Para que os dias escuros desapareçam, precisamos parar de acumular mais e mais dias cinzentos, assim, eles vão sumindo, até que nada mais reste.

Branco lembra dias em que nada aconteceu. Dias que passaram em branco e nada fizemos, nem planejamos, nem buscamos, nem sonhamos, nem, nem… Esses dias não podem ser considerados os mais belos, embora seja o oposto dos dias escuros. Mas esses são os dias em que mais temos oportunidades.

Nos dias em branco, o sol está lá, perto, constante; a brisa tem todo espaço para correr livremente e você, e eu, temos uma folha limpa, e podemos colorir como quisermos. Podemos desenhar um arco-íris, todo colorido, ou podemos construir uma paisagem em escala de cinza, que pode ir se escurecendo, até que nada mais se veja.

Geralmente, após dias escuros e cinzentos, vêm os dias em branco, que se caracterizam por uma nova etapa, um recomeço, e essa é nossa chance de fazer diferente, de esquecer os dias passados e construir um novo hoje.

A sabedoria não está escondida em nenhum lugar que não podemos encontrar. Ela pode estar mais perto do que se imagina, ou mais longe, se não se imaginar. Ela pode ser um dom, que não pertence a todos, mas todos podem emprestá-la numa despretensiosa conversa com seu interior. Ela é que irá definir que dia você será capaz de construir.